três cartas.

ilusão. encontro. satisfação.

um passado de amores confusos e confundidos. de poesias que, de tão vazias, se encaixaram em qualquer um. presente forte e antigo, reencontro de um nós que nunca existiu nessa existencia – e talvez nem exista. talvez. talvez. uma falsa esperança de quem adora se mergulhar em mares rasos, que tem medo da água salgada, por mais que seja a sua casa. que fica na areia, vendo as curvas de espuma que tentam laçar seus pés e te convidar pra dançar. talvez. talvez. quando a onda vai, aparece a concha. a gente se admira. é grande e tem cor de poesia. então se abaixa pensando em pegar. talvez. talvez. outra onda vem. leva embora o que tanto estava inspirando e a gente então se arrepende de não ter a guarado pra si. aliás, outro dia achei uma conchinha na bolsa, meio rosa e meio branca. lembrei de você. essa cor meio rosa e meio branca. de um encontro, reencontro. o primeiro de muitos que não existiram. talvez. talvez. que quase virou sim. pensei que fosse a satisfação, era mais uma ilusão.

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Bolha de sabão

Eu queria ter nascido
Bolha de sabão
Dessas feitas de vento forte
E vazio gigante
Que acaba parada no ar

Ou uma de sopro infantil
De tamanho pequeno
E voa ligeiro
Fugindo e brincando
Com outras mil

Tem ainda aquelas
Que parecem três
E a gente mal sabe
Onde acaba bolha
E começa outra

Mas eu queria mesmo
Que você fosse
Bolha de sabão
Pra te proteger
De criança, vento e folha

Menos das borboletas
Explodir por borboletas
Não é explosão que dói
É expandir de poesia
E estourar de inspiração

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Mania de dissecar palavras

Eu tenho mania

De dissecar palavras

Sento à mesa

Ponho o óculos

Afio e firmo a pena

 

Pronta.

 

A primeira

Infla no peito

Salta na boca

CORAÇÃO

 

Cravo a ponta-bisturi

Na vontade de rasgar

o que me é vital

 

Começo no C,

a curva que se fecha em punho

Encontro o O em ciclo

R corta reto e firme a camada que vem

 

Chego no A,

No meio

Que se avermelha

Pelo medo de ser partido

 

Coração em duas partes

vira cliché

 

O C se apressa

E deixa um rastro

De sangue

Na veia pulsante

 

A surge gigante

E abre a boca na vontade

De engolir o mundo

Que pensa carregar

 

Enfim a última proteção:

O fino e suave

Que acaba no centro

oco e vazio

 

O amor não mora no coração

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Minha palavra é suja de sangue

Mas não desse sangue limpo

Vermelho

De veia furada a todo vapor

 

É sangue que acumula

Que hiberna

E é expelido na falta

De ser fecundado

 

Meu verso é aborto

Morre na metade

Dá pena e raiva

Fede e dá nojo

 

Minha poesia

É hormonal

Como uma histeria

Que a gente ignora

 

Não é natureza

Mas é natural

De raiz

E alma

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O cigarro

Estava ainda

Aceso

 

Quando você

Me jogou

No chão

 

E nem

Fez questão

De pisar

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Quando você chegou 

Com as suas cicatrizes

Pensei comigo

Nunca vi um homem

Com tantas cicatrizes

 

Pensei até

Nunca vi ninguém

Com tantas cicatrizes

Mas você se apresentou

E me apresentou

Cada uma delas

 

A primeira foi de briga

Uma dessas de bar

De um bar desses

Onde você

Me conheceu

 

E eu conheci

Aquela ainda meio ferida

De quando você quis

Não querer mais

A vida

 

E eu recolhi

Cada cicatriz

Recolhi você

Recolhi sua vida

 

Como quem colhe

A fruta verde do pé

Que sabe que o gosto

Poderia ser mais doce

Mas come pelo medo

De perder

 

Como quem rasga

Mais uma vez

A própria pele

Pelo medo

De cicatrizar

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A gente devia

é ser poesia

Devia morar no mesmo verso

A gente devia ser soneto

 

Mas palavra distante

Não rima

 

A gente devia é ser parente

De comer todo domingo junto

A gente devia é ser primo

 

Mas nosso sangue é diferente

Nossos vermelhos nem se encontram

 

A gente devia chorar junto

Dividir cada crise

A gente devia se internar um no outro

 

Mas tristeza que não se sente

A gente inventa sozinho

 

A gente devia ser doce

De se lambuzar de amor-açúcar

A gente devia se enjoar da gente

 

Mas nosso sentimento é agridoce

Desses que nem sabemos que gosto tem

 

A gente devia pisar no mesmo chão

Descalço com pé na terra

A gente devia é ser vizinho

 

Mas a gente, pra se ver

São três trens

 

A gente devia ser nós

Perder as nossas pontas

E virar um fio só

 

Mas eu falo por nós

Sem nem conhecer você

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