Escada

O degrau era maior que o passo e a memória menor que a lembrança daqueles primeiros anos de infância. Menor também era, a cada vez, o espaço para cruzar aquela escada da casa à rua, afinal, o tempo de casa era quase o mesmo que o de vida dos pequenos.

Tudo tinha gosto de fruto doce no ninho lá de cima; era um sonho da família, dessas formadas por dois casais, um de gente grande e um de gente pequena. Lá dentro tinha cachorro, tinha pintura, tinha quintal, terraço, grama e cada vez menos motivos para cruzar pro lado de baixo. A felicidade tangia ao infinito vezes mil milhões, como o número de histórias e sonhos.

O mundo dos pequenos era grande mas o dos grandes era cada vez menor. O homem grande agora ficava mais no lado da rua, abaixo do sonho e no limite da liberdade. A tabuada agora era de divisão dos milhões de felicidade.

Um dia, depois de muitos, o grande cruzou a escada e sentou bem no degrau do topo, ao lado da pequena e se falaram não por palavra mas por olho. Na altura dos olhos, tinham o mesmo tamanho; a água no olho do pai deixou a filha com coração molhado e boca seca. Num abraço menor que o braço, a filha acolheu o pai.

Cruzaram a escada com passos únicos, os dois do mesmo tamanho, multiplicando e dividindo por si mesmo. No lado de baixo, cada caminho seguiu para o seu próprio lado, sem nunca mais voltar para o sonho de cima.

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Você é tanto

tanto que

quando chega

eu me calo

 

tanto que

faz o tempo parar

 

você é tanto

tanto que

eu penso que conheço

 

tanto que

me dá medo

 

você é tanto

tanto que

é muitos

é guerreiro

caboclo

militar

é famoso

é cantor

é amor

 

tanto amor

que me dá raiva

é tanto

que transborda

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O vazio

está cheio

infla no balão

do peito

e do estômago

a solidão

cochicha vozes

que mandam ficar

em silêncio

o ar sufoca

quem só tenta

respirar

inspirar

rasteja a vontade

de chegar até

alguém

na busca

busca

alguém

respira

rasteja

busca

a si

inspira

e enche

o vazio

enche o saco

de quem tenta

ser completo

tá vazio

como o tudo

que o nada

perdeu

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tem um buraco

no muro que você construiu

e ninguém sabe mais

o que é dentro

o que é fora

o que sou eu

o que é você

o que é perna

o que é raiz

o que é nuvem

o que é chão

o que é céu

o que é seu

 

o muro quebrou

por trás dele

se vê

a culpa que guardou

a solidão que senti

histórias suas

memórias minhas

tudo se mistura

nós torna um

 

o muro desfez

e mostrou

o amor

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Luz de Laura

na linha do horizonte

rasga um sorriso

e de laranja ilumina

quem conhece a noite tão bem

 

a Laura entende

que tem gente que chega

e tem quem fica

ela sabe o que é amar

 

Laura é natureza

cores que combinam

e se encontram

quando tudo é meio cinza

 

Laura é raiz

de flor que cresce

pra dentro de si

pra dentro da terra

 

Laura ouve

aprende e sente

Laura toca

ensina e sorri

 

É o carinho de quem ama

e faz se sentir amada

é a certeza de quem sabe

que o céu também escurece

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três cartas.

ilusão. encontro. satisfação.

um passado de amores confusos e confundidos. de poesias que, de tão vazias, se encaixaram em qualquer um. presente forte e antigo, reencontro de um nós que nunca existiu nessa existencia – e talvez nem exista. talvez. talvez. uma falsa esperança de quem adora se mergulhar em mares rasos, que tem medo da água salgada, por mais que seja a sua casa. que fica na areia, vendo as curvas de espuma que tentam laçar seus pés e te convidar pra dançar. talvez. talvez. quando a onda vai, aparece a concha. a gente se admira. é grande e tem cor de poesia. então se abaixa pensando em pegar. talvez. talvez. outra onda vem. leva embora o que tanto estava inspirando e a gente então se arrepende de não ter a guarado pra si. aliás, outro dia achei uma conchinha na bolsa, meio rosa e meio branca. lembrei de você. essa cor meio rosa e meio branca. de um encontro, reencontro. o primeiro de muitos que não existiram. talvez. talvez. que quase virou sim. pensei que fosse a satisfação, era mais uma ilusão.

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Bolha de sabão

Eu queria ter nascido
Bolha de sabão
Dessas feitas de vento forte
E vazio gigante
Que acaba parada no ar

Ou uma de sopro infantil
De tamanho pequeno
E voa ligeiro
Fugindo e brincando
Com outras mil

Tem ainda aquelas
Que parecem três
E a gente mal sabe
Onde acaba bolha
E começa outra

Mas eu queria mesmo
Que você fosse
Bolha de sabão
Pra te proteger
De criança, vento e folha

Menos das borboletas
Explodir por borboletas
Não é explosão que dói
É expandir de poesia
E estourar de inspiração

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Mania de dissecar palavras

Eu tenho mania

De dissecar palavras

Sento à mesa

Ponho o óculos

Afio e firmo a pena

 

Pronta.

 

A primeira

Infla no peito

Salta na boca

CORAÇÃO

 

Cravo a ponta-bisturi

Na vontade de rasgar

o que me é vital

 

Começo no C,

a curva que se fecha em punho

Encontro o O em ciclo

R corta reto e firme a camada que vem

 

Chego no A,

No meio

Que se avermelha

Pelo medo de ser partido

 

Coração em duas partes

vira cliché

 

O C se apressa

E deixa um rastro

De sangue

Na veia pulsante

 

A surge gigante

E abre a boca na vontade

De engolir o mundo

Que pensa carregar

 

Enfim a última proteção:

O fino e suave

Que acaba no centro

oco e vazio

 

O amor não mora no coração

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Minha palavra é suja de sangue

Mas não desse sangue limpo

Vermelho

De veia furada a todo vapor

 

É sangue que acumula

Que hiberna

E é expelido na falta

De ser fecundado

 

Meu verso é aborto

Morre na metade

Dá pena e raiva

Fede e dá nojo

 

Minha poesia

É hormonal

Como uma histeria

Que a gente ignora

 

Não é natureza

Mas é natural

De raiz

E alma

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O cigarro

Estava ainda

Aceso

 

Quando você

Me jogou

No chão

 

E nem

Fez questão

De pisar

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