É ruim

É fraco

É de doer

Nem é poema

É piada

É porrada

É porra

Nem sei porque escreve

Nem sei como sai

Mas sai

Jorra

Atinge

Até tem gente

Que finge

Que gosta

Mas no fundo sabe

Que é tudo

A mesma bosta

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Certas canções que ouço

Às vezes passo por momentos

em que não me entendo

e numa canção tudo se traduz

Escuto

O ritmo

Repito

Melodia

Métrica

Voz

Me entra

O ciclo

A verdade

Esgoto o nota

O harpejo

O sentimento

O sentido

Aí soluço

Esvazio

Troco de faixa.

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É rosa mas é vermelha

É gente mas, nos olhos de outra gente, é bicho

É nova mas traz o riso de quem já viveu muito

Uma só mas leva em si outras tantas

De carne e osso mas gira e dança como se o vento fosse levar

Menina mas sangra e faz sangrar

Rosa no riso, no jeito e no tom

Mas é vermelha nos olhos, na alma e no coração

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Eu sempre tive esse defeito

De falar na hora de calar e soltar o verbo preso na corrente.

De dar abraço a quem me trocou o descaso.

De me preocupar com o pouco e negar o muito.

De ter o olho junto e os dedos separados.

O pé pequeno e é o peito grande.

De gostar bem do prato que não tem.

De ser um tamanho maior que a roupa.

De ter vontade de fazer xixi depois de mergulhar na piscina.

De sair quando tem que dormir e dormir quando tem que acordar.

De chorar com o mendigo e rir do prefeito.

De achar perfeito o defeito na pele.

De tomar sol sem protetor e sair de casa sem carteira.

De acordar às 6 no domingo.

De de ouvir o som do nada.

De amar e reamar quando me pedem o contrário.

De dizer eu te amo no primeiro encontro.

De ser reticências enquanto você é ponto.

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eu odeio poemas

odeio

odeio porque quando olho pra eles

olho pra mim

olho praquela que acordou

no meio da noite

enjoada de sentir

e precisou vomitar

cuspir com palavras

o que não cabia mais no peito

e nem se encaixava na língua

 

odeio porque o poema me mostra

com o coração

o que não dá pra entender com a cabeça

ou pra botar culpa na infância

nas sobras da mãe

ou na falta do tempo

no poema

é só aquela sem desculpa

e com excesso de culpa

 

é mais fácil subir no Palco

cantar outra dor

contar piada do pato, de pinto

brincar de tinder

falar de política

ler um romance meio infantil

mas escrever poema

poema

eu odeio poema

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na hora do corre corre

do vamos ver

do despertador que toca

e a gente só vai

nada faz sentido

nem dá tempo pra dar sentido

 

e é por isso que a gente quer

um pote de doce de leite

um pote de doce de leite maior

maior maior

 

e é por isso que a coloca a colher

direto no pote

que lambe até sentir o gelado do metal

que depois coloca a colher de novo

mesmo sabendo que ainda

tem saliva da outra lambida

 

mas é que na hora que o ônibus passa

que a bateria vai acabar

que o sol vai embora

não dá tempo de dizer pelo coração

 

e é por isso que a gente escreve

frases curtas

com mais dor que palavra

sem ponto

 

mas o que a gente queria mesmo

era um banho de banheira junto

queria que o abraço na cama de ontem

durasse até o meio dia de amanhã

ou de depois de amanhã

ou do ano que vem

 

e é por isso que a gente traga o cigarro

depois traga de novo

mesmo sabendo que

a outra fumaça

ainda estava no pulmão

e tosse

 

e depois sorri de você mesmo

com uma pontinha de choro

escondida atrás da bolsinha

de baixo do olho

 

mas é que na pressa

na correria do dia a dia

nem deu tempo

da água escorrer até o final

é que logo antes do relógio apitar

aquela última lágrima

ficou esquecida

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O corte

Me cortei
Tentando juntar
Os cacos do amor
Que você quebrou

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