Vida que cegue

E então fecha a porta. Sem bater e nem trancar. Sem tchau. Mas a certeza do definitivo. Sem medo de disfarçar a insegurança. Com todo o amor bem escondido no passado e na razão. Leva o disco do pink floyd, as roupas penduradas, leva todas as desculpas para nunca mais voltar. Deixa a chave em cima da mesa, deixa a culpa de ainda querer, deixa o olho molhado, carregado de azul. E então pinga. Pinga o primeiro quinze de março, pinga a lua cheia, pinga o sorvete de melancia, pinga o filme do Woody Allen, pinga a viagem de madrugada pra praia, pinga a gota mais escurinha do cinema, pinga a gota do gozo, pinga cada uma das 2355 gotas, a gota do disco do pink Floyd, das chaves na mesa. Cai a gota da porta. Cai a gota de tudo que não viu. Cai a gota do azul do olho. Cai a gota da pupila, e a dos ligamentos, a da córnea, a da retina, do nervo óptico, do ponto cego. Fica o vazio do buraco preto. Da janela quebrada de onde escorreu a alma.

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