Minha palavra é suja de sangue

Mas não desse sangue limpo

Vermelho

De veia furada a todo vapor

 

É sangue que acumula

Que hiberna

E é expelido na falta

De ser fecundado

 

Meu verso é aborto

Morre na metade

Dá pena e raiva

Fede e dá nojo

 

Minha poesia

É hormonal

Como uma histeria

Que a gente ignora

 

Não é natureza

Mas é natural

De raiz

E alma

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O cigarro

Estava ainda

Aceso

 

Quando você

Me jogou

No chão

 

E nem

Fez questão

De pisar

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Quando você chegou 

Com as suas cicatrizes

Pensei comigo

Nunca vi um homem

Com tantas cicatrizes

 

Pensei até

Nunca vi ninguém

Com tantas cicatrizes

Mas você se apresentou

E me apresentou

Cada uma delas

 

A primeira foi de briga

Uma dessas de bar

De um bar desses

Onde você

Me conheceu

 

E eu conheci

Aquela ainda meio ferida

De quando você quis

Não querer mais

A vida

 

E eu recolhi

Cada cicatriz

Recolhi você

Recolhi sua vida

 

Como quem colhe

A fruta verde do pé

Que sabe que o gosto

Poderia ser mais doce

Mas come pelo medo

De perder

 

Como quem rasga

Mais uma vez

A própria pele

Pelo medo

De cicatrizar

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A gente devia

é ser poesia

Devia morar no mesmo verso

A gente devia ser soneto

 

Mas palavra distante

Não rima

 

A gente devia é ser parente

De comer todo domingo junto

A gente devia é ser primo

 

Mas nosso sangue é diferente

Nossos vermelhos nem se encontram

 

A gente devia chorar junto

Dividir cada crise

A gente devia se internar um no outro

 

Mas tristeza que não se sente

A gente inventa sozinho

 

A gente devia ser doce

De se lambuzar de amor-açúcar

A gente devia se enjoar da gente

 

Mas nosso sentimento é agridoce

Desses que nem sabemos que gosto tem

 

A gente devia pisar no mesmo chão

Descalço com pé na terra

A gente devia é ser vizinho

 

Mas a gente, pra se ver

São três trens

 

A gente devia ser nós

Perder as nossas pontas

E virar um fio só

 

Mas eu falo por nós

Sem nem conhecer você

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o foda da poesia

é que ela dói
dói mais
do que palavra
dói tanto
que nem verso
pra virar a dor

chove por dentro
venta no peito
molha no olho
e pinga
uma só rima
dessas clichê
só pra dizer
“o pior já passou”

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O melhor presente

pra se dar
é um livro de receita
com uma xícara
de si
uma tarde
sem salgar
um bolo
com mel
sem nozes
o melhor presente
para se dar
é um livro de receitas
para você

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Sêxtase

Eu já gostei das sextas
Hoje me cansa
Quando aqui dentro
Começa a gritar “É sexta!”
Me dói o estômago
E o coração
De cada brinde
Em vão

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