Quando você chegou 

Com as suas cicatrizes

Pensei comigo

Nunca vi um homem

Com tantas cicatrizes

 

Pensei até

Nunca vi ninguém

Com tantas cicatrizes

Mas você se apresentou

E me apresentou

Cada uma delas

 

A primeira foi de briga

Uma dessas de bar

De um bar desses

Onde você

Me conheceu

 

E eu conheci

Aquela ainda meio ferida

De quando você quis

Não querer mais

A vida

 

E eu recolhi

Cada cicatriz

Recolhi você

Recolhi sua vida

 

Como quem colhe

A fruta verde do pé

Que sabe que o gosto

Poderia ser mais doce

Mas come pelo medo

De perder

 

Como quem rasga

Mais uma vez

A própria pele

Pelo medo

De cicatrizar

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A gente devia

é ser poesia

Devia morar no mesmo verso

A gente devia ser soneto

 

Mas palavra distante

Não rima

 

A gente devia é ser parente

De comer todo domingo junto

A gente devia é ser primo

 

Mas nosso sangue é diferente

Nossos vermelhos nem se encontram

 

A gente devia chorar junto

Dividir cada crise

A gente devia se internar um no outro

 

Mas tristeza que não se sente

A gente inventa sozinho

 

A gente devia ser doce

De se lambuzar de amor-açúcar

A gente devia se enjoar da gente

 

Mas nosso sentimento é agridoce

Desses que nem sabemos que gosto tem

 

A gente devia pisar no mesmo chão

Descalço com pé na terra

A gente devia é ser vizinho

 

Mas a gente, pra se ver

São três trens

 

A gente devia ser nós

Perder as nossas pontas

E virar um fio só

 

Mas eu falo por nós

Sem nem conhecer você

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o foda da poesia

é que ela dói
dói mais
do que palavra
dói tanto
que nem verso
pra virar a dor

chove por dentro
venta no peito
molha no olho
e pinga
uma só rima
dessas clichê
só pra dizer
“o pior já passou”

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O melhor presente

pra se dar
é um livro de receita
com uma xícara
de si
uma tarde
sem salgar
um bolo
com mel
sem nozes
o melhor presente
para se dar
é um livro de receitas
para você

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Sêxtase

Eu já gostei das sextas
Hoje me cansa
Quando aqui dentro
Começa a gritar “É sexta!”
Me dói o estômago
E o coração
De cada brinde
Em vão

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Ê meu nego

Ê meu nego,

De olhos negros

E olhar vermelho

Não deixa o meu desviar

Ê meu nego,

De amor louco

E vida intensa

Tira a minha do lugar

Ê meu nego,

Que gosta de rock

Sente meu gosto

E me faz mudar

Ê meu nego,

Você tanto me tem

Me traz um bem

E escolhe se fazer mal

Ê meu nego,

De caminhos separados

E mãos pra sempre juntas

Por monstros tão iguais

Ê meu nego,

Que eu tanto nego

Mas meu coração escolheu

Há vidas atrás.

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É ruim

É fraco

É de doer

Nem é poema

É piada

É porrada

É porra

Nem sei porque escreve

Nem sei como sai

Mas sai

Jorra

Atinge

Até tem gente

Que finge

Que gosta

Mas no fundo sabe

Que é tudo

A mesma bosta

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Certas canções que ouço

Às vezes passo por momentos

em que não me entendo

e numa canção tudo se traduz

Escuto

O ritmo

Repito

Melodia

Métrica

Voz

Me entra

O ciclo

A verdade

Esgoto o nota

O harpejo

O sentimento

O sentido

Aí soluço

Esvazio

Troco de faixa.

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É rosa mas é vermelha

É gente mas, nos olhos de outra gente, é bicho

É nova mas traz o riso de quem já viveu muito

Uma só mas leva em si outras tantas

De carne e osso mas gira e dança como se o vento fosse levar

Menina mas sangra e faz sangrar

Rosa no riso, no jeito e no tom

Mas é vermelha nos olhos, na alma e no coração

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Eu sempre tive esse defeito

De falar na hora de calar e soltar o verbo preso na corrente.

De dar abraço a quem me trocou o descaso.

De me preocupar com o pouco e negar o muito.

De ter o olho junto e os dedos separados.

O pé pequeno e o peito grande.

De gostar bem do prato que não tem.

De ser um tamanho maior que a roupa.

De ter vontade de fazer xixi depois de mergulhar na piscina.

De sair quando tem que dormir e dormir quando tem que acordar.

De chorar com o mendigo e rir do prefeito.

De achar perfeito o defeito na pele.

De tomar sol sem protetor e sair de casa sem carteira.

De acordar às 6 no domingo.

De de ouvir o som do nada.

De amar e reamar quando me pedem o contrário.

De dizer eu te amo no primeiro encontro.

De ser reticências enquanto você é ponto.

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