A gente devia

é ser poesia

Devia morar no mesmo verso

A gente devia ser soneto

 

Mas palavra distante

Não rima

 

A gente devia é ser parente

De comer todo domingo junto

A gente devia é ser primo

 

Mas nosso sangue é diferente

Nossos vermelhos nem se encontram

 

A gente devia chorar junto

Dividir cada crise

A gente devia se internar um no outro

 

Mas tristeza que não se sente

A gente inventa sozinho

 

A gente devia ser doce

De se lambuzar de amor-açúcar

A gente devia se enjoar da gente

 

Mas nosso sentimento é agridoce

Desses que nem sabemos que gosto tem

 

A gente devia pisar no mesmo chão

Descalço com pé na terra

A gente devia é ser vizinho

 

Mas a gente, pra se ver

São três trens

 

A gente devia ser nós

Perder as nossas pontas

E virar um fio só

 

Mas eu falo por nós

Sem nem conhecer você

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o foda da poesia

é que ela dói
dói mais
do que palavra
dói tanto
que nem verso
pra virar a dor

chove por dentro
venta no peito
molha no olho
e pinga
uma só rima
dessas clichê
só pra dizer
“o pior já passou”

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O melhor presente

pra se dar
é um livro de receita
com uma xícara
de si
uma tarde
sem salgar
um bolo
com mel
sem nozes
o melhor presente
para se dar
é um livro de receitas
para você

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Sêxtase

Eu já gostei das sextas
Hoje me cansa
Quando aqui dentro
Começa a gritar “É sexta!”
Me dói o estômago
E o coração
De cada brinde
Em vão

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Ê meu nego

Ê meu nego,

De olhos negros

E olhar vermelho

Não deixa o meu desviar

Ê meu nego,

De amor louco

E vida intensa

Tira a minha do lugar

Ê meu nego,

Que gosta de rock

Sente meu gosto

E me faz mudar

Ê meu nego,

Você tanto me tem

Me traz um bem

E escolhe se fazer mal

Ê meu nego,

De caminhos separados

E mãos pra sempre juntas

Por monstros tão iguais

Ê meu nego,

Que eu tanto nego

Mas meu coração escolheu

Há vidas atrás.

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É ruim

É fraco

É de doer

Nem é poema

É piada

É porrada

É porra

Nem sei porque escreve

Nem sei como sai

Mas sai

Jorra

Atinge

Até tem gente

Que finge

Que gosta

Mas no fundo sabe

Que é tudo

A mesma bosta

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Certas canções que ouço

Às vezes passo por momentos

em que não me entendo

e numa canção tudo se traduz

Escuto

O ritmo

Repito

Melodia

Métrica

Voz

Me entra

O ciclo

A verdade

Esgoto o nota

O harpejo

O sentimento

O sentido

Aí soluço

Esvazio

Troco de faixa.

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É rosa mas é vermelha

É gente mas, nos olhos de outra gente, é bicho

É nova mas traz o riso de quem já viveu muito

Uma só mas leva em si outras tantas

De carne e osso mas gira e dança como se o vento fosse levar

Menina mas sangra e faz sangrar

Rosa no riso, no jeito e no tom

Mas é vermelha nos olhos, na alma e no coração

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Eu sempre tive esse defeito

De falar na hora de calar e soltar o verbo preso na corrente.

De dar abraço a quem me trocou o descaso.

De me preocupar com o pouco e negar o muito.

De ter o olho junto e os dedos separados.

O pé pequeno e o peito grande.

De gostar bem do prato que não tem.

De ser um tamanho maior que a roupa.

De ter vontade de fazer xixi depois de mergulhar na piscina.

De sair quando tem que dormir e dormir quando tem que acordar.

De chorar com o mendigo e rir do prefeito.

De achar perfeito o defeito na pele.

De tomar sol sem protetor e sair de casa sem carteira.

De acordar às 6 no domingo.

De de ouvir o som do nada.

De amar e reamar quando me pedem o contrário.

De dizer eu te amo no primeiro encontro.

De ser reticências enquanto você é ponto.

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eu odeio poemas

odeio

odeio porque quando olho pra eles

olho pra mim

olho praquela que acordou

no meio da noite

enjoada de sentir

e precisou vomitar

cuspir com palavras

o que não cabia mais no peito

e nem se encaixava na língua

 

odeio porque o poema me mostra

com o coração

o que não dá pra entender com a cabeça

ou pra botar culpa na infância

nas sobras da mãe

ou na falta do tempo

no poema

é só aquela sem desculpa

e com excesso de culpa

 

é mais fácil subir no Palco

cantar outra dor

contar piada do pato, de pinto

brincar de tinder

falar de política

ler um romance meio infantil

mas escrever poema

poema

eu odeio poema

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